De regresso às lides bloguistas depois de tanto tempo, o tema que me traz de volta acaba por ser o tema que me dá tempo para escrever – a presença da FCSH na Expolíngua.
A experiência como expositora não podia ser mais oposta à experiência como visitante e no entanto, os sentimentos gerais acabam por ser sensivelmente os mesmos. Não atribuo isso ao facto da feira se manter igual, mas na realidade ao facto do mundo de hoje ser tão diferente e os meus olhos enquanto visitante e “visitada” serem basicamente os mesmos.
Trocando estes considerandos gerais pela informação especifica acerca do meu estado de espírito:
Enquanto aluna, realizei várias visitas de estudo à Expolíngua, no âmbito sobretudo da disciplina de Inglês. Na altura, como boa aluna que era, não via com grande interesse a minha presença em tal certame, visto que não pretendia integrar nenhum desses cursos “extra-curriculares” de inglês que me eram oferecidos em doses industriais. Já bastava o estudo na escola, não precisava agora de mais actividade lectiva. O único foco de interesse além da ausência nas aulas acabava por ser a aquisição de algum dicionário ou ajuda educativa a preços mais convidativos, o que mesmo assim era raro acontecer. Como aluna, a Expolíngua era uma “seca” porque não pretendia nada do que me ofereciam (ou do que eu poderia gostar, não possuía poder económico para adquirir, como cursos de verão no estrangeiro).
Enquanto expositora o sentimento de “seca” mantém-se. Isto porque são raros os alunos que nos chegam motivados para a nossa oferta – ou são demasiado pequenos, ou não estão nas áreas de estudo que os transformam em públicos-alvo para a feira ou sobretudo porque são mal-educados, mal encaminhados e desinteressados. O nosso público maioritário nestes dias tem sido sobretudo constituído pelos professores que acompanham estes alunos e que procuram informações para si mesmos.
Assim, pergunto eu e muita gente deve indagar o mesmo – Expolíngua porque? Ou melhor, porque não funciona este certame que à partida, nos dias de hoje, deveria ser essencial para encaminhar os estudantes no estudo de idiomas diferentes, que lhes possam abrir perspectivas no mercado de trabalho??
Por estranho que pareça, esta reflexão leva-me a questionar e muito o trabalho dos professores. E isto acontece sobretudo devido à minha experiencia pessoal enquanto aluna.
No ensino básico, era raro falhar-se a Expolíngua a partir do 7º ano na minha escola. Antes de irmos, a visita era preparada com indicação do que iríamos fazer na feira – observar, trazer informação, eventualmente adquirir um ou outro instrumento auxiliar para o estudo da língua (dicionário, gramática etc.).
Quando chegávamos, os professores acompanhavam-nos na visita aos stands, explicando que instituições visitávamos e recolhendo igualmente informação, tal como os alunos. Normalmente analisávamos na aula seguinte o que haveria de interesse.
Não se viam crianças da pré-primaria e da primária a correr atrás de brindes, não havia animação barulhenta patrocinada pelo Ministério da Educação.
E hoje o que vejo? Crianças e adolescentes a correr, a batalhar com mapas enrolados, a perseguir freneticamente todo e qualquer brinde sem interesse nenhum, a gritar e a praguejar, a namorar e a bocejar (ok, a parte do bocejar eu às vezes também fazia...).
E o que vejo mais? Os professores, na sua maioria, a agirem eles próprios como adolescentes, rindo nos seus grupinhos, discutindo as suas quezilas ministeriais (mas aceitando o seus coloridos caderninhos), sorrindo às asneiras e gestos obscenos ou simplesmente largando sozinhos os seus alunos durante mais de duas horas num espaço com meia dúzia de stands, isto é claro, depois de todos os meninos terem ido tomar o café que reclamavam desde que chegaram.
É aqui que eu me insurjo contra esta geração. Mas não contra a geração de alunos – “boys will be boys”, disse alguém e com razão. Pois não pensem que quando eu andava na escola os putos não queriam andar à pancada, jogar à bola com balões, correr e saltar pelos pavilhões, enfiar imediatamente na cabeça os bonés novos oferecidos por uma qualquer endinheirada editora.... A diferença está exactamente nos professores que não deixavam que nada disso acontecesse. Que acompanhavam a visita no seu sentido estrito e não apenas no que respeita ao caminho. E que sobretudo compreendiam que turmas deviam e não deviam levar para cada um dos eventos considerados possíveis “visitas de estudo”. Hoje parece ser um escape para os professores trazer os alunos a qualquer actividade que lhes permita não ter aulas para eles também não terem de os aturar nessas mesmas aulas. Deixá-los à solta num qualquer pavilhão é bastante mais fácil e assim parece que, quanto pior a turma, mais “passeios” merece.
Mas o que realmente me entristece é exactamente esta facilidade da escola de hoje. Preparamos grupies cheias de estilo, dreads e betos com conhecimento superior do seu sentido da moda, mas pessoas de cérebros vazios – e com um cérebro vazio de ideias, um coração não pode nunca estar cheio de sentimentos.
Com isto não pretendo que todos os alunos cheguem aqui intelectuais de monta, a recitar Shakespeare e Cervantes, Camões e Camus. Não é isso o que é ser jovem para a maioria, afinal de contas. O que eu gostava, queria e desejava era que quando encontro o olhar destes jovens (no final de contas sou também ainda uma jovem, bolas!) ver mais do que um tédio existencial que nem eles mesmos conseguem exprimir. Uma ausência de horizontes, um aqui e agora pleno de sensações, mas muitas das vezes tão oco de emoções...
(Tudo isto para exprimir o meu desconforto em relação ao publico da Expolíngua, uff!!!!)
Como conclusão a estes longos considerandos, o pensamento que me ocorre é este – se hoje o debate é sobre a implementação da educação sexual, eu digo que o que faz falta é educação sentimental – falta aos jovens de hoje poesia – e não, não a podemos beber como um chá...pelo menos sem alguém nos mostrar quão maravilhosamente este pode ser preparado...